“Transferência no Processo Analítico”: Qual o Significado deste Termo?

 

O objetivo deste texto a apresentar e percorrer o conceito de transferência no processo analítico. A partir dos casos e obras de Freud. Sabemos que no durante todo o processo no tratamento analítico o paciente apresenta conteúdos conscientes.

Como também reproduz constantemente conteúdos que até o momento estavam inconscientes e reprimidos, o qual o analista. Através da escuta, tem como principal objetivo identificar e interpretar aquilo que estava recalcado. Buscando assim ajudar na elaboração dos traumas, não somente físicos, mas também de ordem psíquica.

Sobre o conceito de Transferência no Processo Analítico:

As sessões de análises são acompanhadas de uma grande dose de “afeto” e “impulsos amorosos”. Até porque é especialmente evidente e de modo inevitável que as manifestações de transferências (podendo ser positivas ou negativas), surgiram durante as análises. Isso ocorre independente da forma conduzir ou agir do analista.

Além disso, não podemos deixar de citar que o ponto de partida sobre este tema, surgiu através da parceria de Sigmund Freud com o renomado médico Josef Breuer. Tudo isso no tratamento de uma paciente conhecida pelo pseudônimo Anna O.

Cujo verdadeiro nome era Bertha Pappenheim. Resultando assim posteriormente, em 1895 na publicação da obra “Estudo sobre a histeria”. Sinalizado então o início da teoria psicanalítica e onde pela primeira vez Freud empregou o termo “transferência”.

Transferência no Processo Analítico, O Caso: 

Anna O. era uma jovem mulher que adoeceu aos 21 anos. Diagnosticada na época por um quadro chamado de histeria, que foram desencadeadas pelo extremo sofrimento causado por uma longa doença de seu pai. Correlacionadas juntamente com as diversas tensões da infância. 

Breuer inicialmente utilizava-se a técnica de sugestão hipnótica (criada por Jean-Martin Charcot), onde sob o efeito da hipnose, era pedido a paciente que se recordasse o momento exato que a levou ao surgimento do sintoma.

Então assim era possível acessar mais facilmente as lembranças traumáticas o que poderia reduzir ou desaparecer completamente os sintomas desses distúrbios mentais (COLLIN. et al., 2012).

Breuer era fascinado por este caso e despendeu-se tanto tempo com Anna O., que ela passou a nutrir desejos intensos e uma “paixão” pelo médico.

Após uma crise matrimonial (sua esposa ficar enciumada), ele repentinamente resolveu terminar o tratamento. Ao encerrar o tratamento, Anna O. desenvolve uma “gravidez psicológica”, dizendo que o filho era dele. Inclusive a mesma apresentava sintomas e fortes dores similares a dor de um parto.

Fenômeno Transferencial

Posteriormente, esse tipo de situação, que é comum nos casos clínicos, foi conceituado por Freud como um fenômeno transferencial.

Ele escreve, em seu trabalho “Um caso de histeria”. Se é verdade que as causas das perturbações histéricas devem ser encontradas nas intimidades da vida psicossexual dos pacientes, e que os sintomas histéricos são a expressão de seus desejos mais secretos e reprimidos.

Logo a elucidação completa de um caso de histeria, implica certamente a revelação dessas intimidades e a divulgação desses segredos. (FREUD, 1972, p. 5-6)

Freud, a partir deste caso, conseguiu identificar que existe uma intensa participação de forças de origem sexual provindas da infância (que resultam na produção dos sintomas neuróticos). O que o conduziu a desvendar a sexualidade infantil e o complexo de Édipo.

No entanto, tais convicções fez com que começasse a surgir algumas discordâncias. O que levou Breuer então a romper a parceria em 1897.

Outras referências acerca da Transferência no Processo Analítico

Em sua obra “O Ego, o Id e outros trabalhos”, ele declara: Para completar essa lista acrescentarei que entre as atitudes afetivas da infância a complicada relação emocional das crianças com os pais – o que é conhecido por complexo de Édipo – surgiu em proeminência.

Ficou cada vez mais claro que ele era o núcleo de todo caso de neurose, e no comportamento do paciente para com seu analista surgiram certos fenômenos de sua transferência emocional que vieram a ser de grande importância para a teoria e a técnica, do mesmo modo. (FREUD, 1923, p. 117)

É fundamental ressaltar que tanto Breuer quanto a caso da Anna O., através do método catártico e da ab-reação, impulsionaram Freud começar a aprofundar seus estudos e a desenvolver a nova técnica de associação livre (utilizada até os dias atuais, abandonando assim gradualmente a hipnose).

Portanto, estimulando então a descobrir alguns dos aspectos técnicos da ciência que privilegiava a existência de uma dinâmica inconsciente no aparelho psíquico, possibilitando assim que ele construísse e estruturasse os alicerces essenciais da teoria psicanalítica.

O conceito de Transferência no Processo Analítico

A transferência é uma das mais importantes descobertas de Freud, sendo considerada fundamental para o processo de cura. No entanto, necessitamos ressaltar que a psicanálise não cria a transferência, ela apenas a revela.

Alguns teóricos afirmam que o fenômeno transferencial se instala no paciente ainda antes dele sequer ter tido um contato pessoal com o seu possível analista. Ou seja. pode surgir desde o encaminhamento, uma observação. O primeiro contato telefônico, etc. Uma vez que isso indica que já está havendo um laço terapêutico, apoiado na confiança direcionada ao analista.

A transferência também está presente em nosso cotidiano. Podendo ser observada em inúmeras outras situações de interação social (na relação marido/esposas, professor/aluno, no ambiente profissional, etc.). Contudo esta é mais evidente na situação analítica.

Para MOORE & FINE (1992, p. 208), a transferência se trata de um “deslocamento de padrões de sentimentos, pensamentos e comportamentos. Originalmente experienciados em relação a pessoas significativas durante a infância. Para uma pessoa envolvida em um relacionamento interpessoal atual”. Ou seja, em análise, o paciente projeta todos os seus afetos (repetindo conteúdos recalcados) sobre o analista.

A transferência como obstáculo no processo analítico:

Originalmente a transferência foi considerada como obstáculo no processo analítico. Até porque, FREUD (1895, p. 215-216), declara textualmente que “quando a relação entre o paciente e o médico é perturbada e constitui o pior obstáculo com que podemos deparar”. Isso ocorre, pois a transferência está diretamente associada com o conceito de resistência.

Além disso,  como já relatado, é evidente que a noção de transferência passou por imensas e constantes modificações ao longo da evolução de toda a teoria psicanalítica. A resistência se estabelece com o intuito de impedir o paciente de expor ao analista suas representações insuportáveis e conteúdos inconscientes. Tudo isso através do discurso na análise. Sendo então este considerado como um mecanismo de defesa do ego.

No “Estudo sobre a histeria”, FREUD (1985, p. 17) ressalta que: “(…) nosso ponto de vista de que a sexualidade parece desempenhar um papel fundamental na patogênese da histeria, como fonte de traumas psíquicos e como motivação para a “defesa”. Isto é, para que as ideias sejam recalcadas da consciência”.

Portanto, essa incapacidade de suportar esses conteúdos leva o indivíduo a recalca-los (isso ocorre ainda na infância). Por isso tem como objetivo a redução das tensões psíquicas internas.

Qual o problema de não suportar os conteúdos?

Ocorre que esses conteúdos (com tendências sexuais) são dolorosos para o paciente, sendo repleto de angústias e desejos proibidos (ao padrão estabelecido a nível pessoal, social ou cultural), o que impõem à mente estabelecer desvios e atalhos.

Entretanto esses conteúdos não permanecem escondidos. Até porque eles retornam de modo disfarçado, se manifestando sob a forma de vários sintomas. O que para Freud seriam os fatores causadores dos transtornos neuróticos.  Embora tudo isso esteja inconsciente ao paciente na sua fase adulto, durante as tentativas do psicanalista. Por isso, ele apresentará diversas barreiras para torná-los conscientes.

Os Sintomas dos Pacientes

Todos os sintomas do paciente abandonam seu significado original e assumem um novo sentido que se refere à transferência (…). Porém, dominar essa neurose nova, artificial, equivale a eliminar a doença inicialmente trazida ao tratamento. Por isso, equivale a realizar nossa tarefa terapêutica.

Uma pessoa que se tornou normal e livre da ação de impulsos instintuais reprimidos em sua relação com o médico. Assim permanecerá em sua própria vida, após o médico haver-se retirado dela. (FREUD, 1915-1916, p. 517-518).

FREUD (1895, p. 215) conceitua que “o importante papel desempenhado pela figura do médico na criação de motivos para derrotar a força psíquica da resistência”. Além das motivações intelectuais que mobilizamos para superar a resistência. Há um fator afetivo, a influência pessoal do médico. Que raramente podemos dispensar. Além disso, em diversos casos só este último fator está em condições de eliminar a resistência. (FREUD, 1895, p 202)

Podemos então dizer que o paciente estabelece a transferência na medida em que forem quebradas as barreiras da resistência (que mantêm as repressões). Ou seja, é através do manejo da transferência que o analisa consegue acessar mais facilmente esses conteúdos inconscientes.

Com isso, à medida que se suspendem as repressões, removem-se a formação dos sintomas. E assim pode ser finalmente encontrado algum tipo de solução.

Manejo do tratamento

Como já citado, a técnica de tratamento analítico consiste na descoberta do material reprimido (através das associações livres do paciente). Além da interpretação das resistências (dentro da transferência). Logo, a fim de torná-las conscientes ao paciente.

Segundo Freud (1914) o intuito é auxiliar o paciente a desenvolver a capacidade para pensar as suas experiências emocionais. Uma regra fundamental que Freud impõe é a associação livre. Ou seja, o paciente deve dizer tudo que lhe passa pela mente, seja o que for. Na associação livre o analista não faz perguntas em forma de questionário.

Portanto, é primordial aqui a habilidade e conhecimento da técnica. Fazendo com que a análise se desenvolva espontaneamente.

Para FREUD (1915-1916, p505), o analista deve operar uma recomendação direta ao paciente. No sentido de que ele despreze as barreiras e as restrições éticas impostas pela sociedade (pois se apresentam como uma privação ao paciente). A fim de conseguir restabelecer seu equilíbrio psíquico. Ainda que se reconheça que este implica desistir da tentativa de “cumprir um ideal que a sociedade exalta. Mas ao qual ela tão raramente adere”.

Conclusão:

Ao fim deste texto, podemos dizer então que o analista deve ser o mais impessoal e reservado possível. Ou seja, não discutir questões políticas, religiosas, sociais ou sexuais. Além disso o mesmo não deve responder a qualquer pergunta referente à sua pessoa, falando o menos possível.

Primeiramente, devemos refletir que a resistência psíquica, em especial uma que esteja em vigor há muito tempo. Só pode ser dissipada com lentidão, passo a passo. Por isso, devemos esperar com paciência.

Em segundo lugar, podemos contar com o interesse intelectual que o paciente começa a sentir após trabalhar por um curto espaço de tempo. Explicando-lhe então as coisas e dando-lhe informações sobre o mundo maravilhoso dos processos psíquicos que nós mesmos só começamos a discernir através dessas análises.

Nós o transformamos num colaborador, induzido-o a encarar a si mesmo com o interesse objetivo de um pesquisador. E assim afastamos sua resistência, que repousa, de fato, numa base afetiva. Mas por último – e essa continua a ser a alavanca mais poderosa – devemos nos esforçar, depois de descobrirmos os motivos de sua defesa. Por despojá-los de seu valor ou mesmo substituí-los por outros mais poderosos. (FREUD, 1895, p. 201).

Embora, Freud refere que o analista (por meio da transferência) deve fazer com que o paciente enxergue que a origem do problema/sintomas não está na circunstância atual, muito menos na posição do analista. Mas sim, trata-se de uma repetição de algo vivido no passado.

O Curso de Psicanálise

Sobretudo Freud (1915), deixa o conselho de que o analista não pode abandonar a transferência. Ou seja, não pode afugentá-la ou estragá-la para o paciente. Até porque ao percebermos tal transferência, não podemos nos entregar a ela e corresponder esse amor do paciente. Nem, todavia, mandar o paciente embora e desistir do tratamento analítico. 

Por fim, pode-se dizer que a transferência é um mecanismo de resistência do indivíduo e cabe ao analista nem ceder à transferência, nem rejeitá-la. No entanto realizar um manejo clínico para que se possa dar continuidade à análise.

Este texto foi escrito por Francielle de Sales Leite, Aluna do curso de Psicanálise Clínica. Para Saber mais sobre o assunto e tudo mais que aconteceno mundo da Psicanálise acesse: https://www.psicanaliseclinica.com/

Referências bibliográficas

BELINTANI, G. Histeria. Psic. On line. Vol. IV. São Paulo: Vetor, 2003.

Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-73142003000200008

Acesso em: 27/05/2019

COLLIN, C. et al. O livro da psicologia. São Paulo: Globo, 2012.

FREUD, S. (1915-1916). Conferências introdutórias sobre psicanálise. Parte III. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, Vol. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, Vol. II. Rio de Janeiro: Imago,

1990.

FREUD, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar: Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago,

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